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Nº 430 - ANO 33 - JULHO DE 2019
 
Tietböhl: “Aprendi mais do que ensinei”
 
A virada de ano trouxe mudanças na gestão do Senar-RS. Após 13 anos como superintendente da entidade, somando duas passagens distintas (2000-2006 e 2011-2018), Gilmar Tietböhl deixou o cargo em dezembro. Ele esteve à frente da entidade em mais da metade de sua existência — o Senar-RS completou 25 anos em abril do ano passado. Na tarde de 20 de dezembro, o dirigente conversou com o Sul Rural sobre a experiência.

Sul Rural — Como era o Senar-RS quando o assumiu pela primeira vez?
Gilmar Tietböhl — Era bem diferente do que se vê hoje. Ambiente fechado, com salinhas pequenas e separadas, sem janelas. Também porque era uma instituição muito nova (sete anos em atividade). Em outras palavras, o Senar-RS não respirava direito. Precisava de aproximação, de clima organizacional entre as pessoas — o que passava por abrir os espaços. Foi esse o primeiro passo para oxigenar a instituição. Derrubamos as paredes, fizemos um projeto que permanece até hoje.

SR — Em relação ao ensino, o que mudou?
Tietböhl — Tentamos modernizar o trabalho todo, pensando de forma estratégica. O Senar-RS precisava de um salto de qualidade. Ele deveria ser capaz de olhar o futuro e dizer: “Olha, provavelmente acontecerá tal coisa em breve, e isso exige treinamento”. Tem a questão recente do drone, por exemplo. Está claro que essa tecnologia chegará de forma ampla no campo um dia, então precisamos formar gente para esse negócio. Ao mesmo tempo, fizemos uma revisão na cartilha de cursos e buscamos uma aproximação com os instrutores e os supervisores, que estão lá na ponta e têm de estar bem conectados conosco, para sentir que realmente fazem parte de algo maior. Se pararmos para pensar, é uma enorme quantidade de recursos humanos, financeiros e tecnológicos que investimos, e tudo acaba em uma pessoa só, na frente dos alunos. Ela precisa ensinar bem.

SR — Que contribuições destaca na área de formação profissional?
Tietböhl — Acredito que houve grandes avanços em termos de profissionalização, qualificação dos instrutores e a própria visibilidade do Senar-RS. Antes, íamos nas feiras agropecuárias para distribuir panfleto, basicamente. Era preciso mostrar na prática o que estava fazendo. Ou seja, chamar as pessoas, atiçar a curiosidade e no final dizer: “Vocês podem aprender com a gente”. Não era só uma questão de tornar o nome conhecido: nós trabalhamos por demanda. Dessa maneira, o Senar-RS conseguiu se consolidar como uma empresa forte, conhecida e necessária no meio rural. Praticamente todo o interior gaúcho sabe como chegar até nós hoje.

SR — Outra linha de atuação foi a promoção social...
Tietböhl — Nessa área, destaco o Programa Alfa. É inclusão mesmo. O adulto aprende a ler e adquire uma capacidade de viver muito diferente. Não é só olhar a linha do ônibus ou preencher uma guia. Ele consegue se informar do mundo pelo jornal, pode acompanhar a lição escolar do filho e do neto, tem acesso a outro tipo de formação. Conseguimos manter esse programa com muito esforço, por meio de recursos próprios (antes, era por repasses do Fundo de Amparo ao Trabalhador). Outra ação importante foi o Agrinho, que promovia uma discussão sobre o meio rural com as crianças nas escolas. Existem ainda outros cursos que estão na área de promoção social, mas que poderiam ter outro nome. É o caso dos cursos de bolachas, pães ou doces caseiros. A verdade é que grande parte desses alunos começa a produzir o alimento em casa e vender na rua, trazendo renda para o lar. E a própria economia doméstica ajuda nas finanças.

SR — É possível acompanhar a transformação tecnológica no agronegócio?
Tietböhl — É fato que as coisas estão acontecendo muito rapidamente. Ano passado, foi lançado um protótipo de trator autônomo. Até quando teremos a profissão de tratorista no campo? Soluções tecnológicas aparecem a cada instante, e eu diria que é dever do Senar-RS acompanhar.

SR — Essa realidade também afetou o método de ensino?
Tietböhl — Sem dúvidas. Mas sempre tivemos consciência de que a transmissão do conhecimento não precisa de sala de aula. Pode ser embaixo do pomar, por meio de vídeo, de revista e da internet. Quando começou, o ensino a distância era por rádio, disco e fita cassete. À medida que a tecnologia avança, existe a adequação. Em breve, formas óbvias de levar conhecimento serão substituídas, é difícil até de imaginar. Por outro lado, o mote mais importante ainda continua valendo: o aprender fazendo. Puramente a distância, muitas coisas não cabem.

SR — Qual a relevância do Senar-RS hoje?
Tietböhl — Ele é essencial, porque ajuda o produtor a produzir melhor, com menos esforço e mais renda. Ensina a buscar qualidade, com a adoção de boas práticas e cuidados com os animais e o meio ambiente. Na crise, é ainda mais importante. Veja esses casos de deriva recentes, por exemplo. Quem melhor que o Senar-RS para mostrar aos agricultores como observar vento, fazer a limpeza correta de bicos, a manutenção das máquinas?

SR — Pessoalmente, o que essa experiência significou?
Tietböhl — Gostaria de deixar claro que encaro esse processo de mudança de forma muito natural. Foram 13 anos inesquecíveis à frente do Senar-RS, que desempenha esse trabalho nobre de capacitar o produtor e o trabalhador rural gaúcho. Ao fim deste ciclo, posso dizer que aprendi mais do que ensinei. (Eduardo) Condorelli é uma pessoa capacitada para a função, e desejo a ele todo o sucesso. Não sei para onde vou, mas levo comigo uma grande experiência de relacionamento com as pessoas, de tolerância e de exercício da liderança.
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