Jornal em Formato HTML
 
Nº 426 - ANO 33 - MARÇO DE 2019
 
La Donna è Móbile - Alcy Cheuiche*
 
Conto dedicado ao meu tio Joaquim Tavares, que viveu esta história lá pelos anos de 1930.

Como Blau Nunes, eu tropeava, nesse tempo. Com vinte e dois anos, recém- formado em Agronomia, recebera do meu pai a incumbência de administrar a Estância São João: trinta quadras de campo na fronteira do Uruguai. E que campo para a engorda de bois! Naquele mês de maio, apartamos 280 novilhos cruza Shorthorn com Devon, bicharedo em volta de seis anos, pesando, em média, calculado a olho, em volta de seiscentos quilos.
Nosso destino era um frigorífico em Livramento. No mínimo uma semana com o gado por diante, eu como capataz de tropa pela primeira vez. Sim, porque desde os quinze anos meu pai me mandava nessas tropeadas como peão, com a condição de que passasse todo o tempo na culatra, comendo barro ou poeira. Para quem não sabe, os culatreiros vão sempre atrás, enquanto os ponteiros, peões mais experientes, vão diante da boiada, abrindo caminho. Isso quando existe um corredor, uma cerca de arame de cada lado da estrada. Em campo aberto, se colocam também peões nas duas laterais da tropa, escolhidos entre os melhores laçadores.
Bueno, mas já estou encompridando o causo. Coisa de velho, que tem tempo. Antigo como as tropeadas de a cavalo, que uns poucos de nós ainda guardam na memória. Poucos, porque já faz mais de meio século que os caminhões acabaram com tudo isso. Mas, se quiser, eu vejo o gado daquela tropa, ouço seu berro e me volta na boca o gosto da carne sapecada, mal assada, pela falta de tempo e de lenha seca.
Aquela tropeada começou e terminou com chuva. Quase não se tirava os ponchos pesados. Qualquer sanga estava virada num rio, e era preciso procurar o melhor vau; serviço meu, agora que era ponteiro e capataz. Eu sabia que, pelas costas, alguns tropeiros mais velhos me chamavam de dotorzinho, mais uma razão para mostrar competência. Mas tudo ia mui bem, até que chegamos na margem de um rio de verdade, o Upamaroti, que bufava de tão cheio. De longe vimos que mais duas tropas já estavam bloqueadas nas proximidades do passo, por onde, agora, não passava ninguém.
A sorte é que tinha a sede de uma estância, a dos Paula Cardoso, ali pertinho. Gente de lei, que mandou tirar o próprio gado dos potreiros lindeiros com o rio, o que nos permitiu segurar por ali as três tropas, sem misturar as reses. Uma do lado esquerdo, outra do lado direito, e a nossa no corredor. Para melhorar as coisas, a chuva parou, e o céu se abriu antes da noite, deixando que a gente pendurasse os ponchos sobre a cerca de arame, como enormes corvos de asas abertas.
Noite de lua nova, uma lâmina de foice no céu estrelado. Depois do churrasco com café preto e bolachas, saí a caminhar até a beira do rio. Que diacho! Além de não baixar, tinha subido mais, como vi por um pauzinho de dois palmos que eu cravara na margem, antes de ir churrasquear, e que estava agora com água pela metade. E foi exatamente nessa hora que ouvi alguém assobiando nas minhas costas. Mas não um assobio comum. Por mais absurdo que possa parecer, aquele som foi me trazendo à cabeça as palavras correspondentes em italiano:


La Donna è móbile
qual piuma al vento
muta d’accento
e di pensiero

Sempre un amabile
leggiadro viso
in pianto o in riso
é menzognero


Sempre assobiando, um homem alto aproximou-se e ficou olhando as águas que desciam em turbilhão.


É sempre misero
chi a lei s’affida
chi le confida
mal cauto Il core

Pur mai non sentasi
felice appieno
chi su qual seno
non liba amore


Quando parou de assobiar, lhe disse, completamente estarrecido:
— Desculpe, mas que espécie de tropeiro é o senhor que sabe assobiar La donna è móbile, do Rigoletto?
— Perdone, pero que especie de tropero es usted, que conoce La donna è móbile, de Rigoletto?
Rimos os dois, e logo fiquei sabendo que ele, na juventude, fora porteiro do famoso Teatro Colón, de Buenos Aires. Para lá iam anualmente companhias líricas europeias, depois de passarem pelo Rio de Janeiro, São Paulo, Pelotas e Montevidéu. No Teatro Sete de Abril, de Pelotas, é que eu assistira, desde menino, levado por meus pais, as apresentações de algumas das óperas mais famosas, principalmente italianas. Mas por que Don Ramírez, agora um homem de uns cinquenta anos, deixara seu emprego num dos teatros mais importantes do mundo para ser um simples tropeiro, e depois de vinte anos de trabalho duro, capataz de tropas no Uruguai e no Brasil?
Isso ele só me contou quatro dias depois, quando nos reunimos os três capatazes. O rio baixara um pouco e resolvemos atravessar o passo ao clarear da manhã seguinte, uns ajudando os outros. Sim, porque juntando todos os tropeiros, tínhamos mais de trinta homens. Tomamos essa decisão e a última meia garrafa de caña de Don Ramírez; nos despedimos do seu Feliciano, o outro capataz, e ficamos ainda charlando um pouco. Foi então que pedi ao argentino para assobiar de novo La Donna è móbile e ele me presenteou com um recital de toda a ária, cantando em voz baixa com uma legítima voz de tenor.
Quando concluiu, não resisti e perguntei-lhe à queima roupa:
— Por que um homem como o senhor deixou seu emprego no Teatro Colón e até a possibilidade de ser um cantor lírico para virar tropeiro, acho que pelo resto da vida?
— Porque la donna è móbile, me disse ele, tentando rir.
E depois, muito sério, relatou-me que era casado e feliz, em Buenos Aires, mas seu emprego no Colón o obrigava a voltar para casa, quase todas as noites, no início da madrugada. Sua mulher o esperava sempre acordada na cama, onde se amavam como se fosse a primeira vez. Acontece que uma companhia de Ópera, depois de apresentar-se no Teatro Solís, de Montevidéu, pegou um temporal na travessia do Rio da Prata e chegou em frangalhos a Buenos Aires. O espetáculo daquela noite foi cancelado na última hora, e Don Ramírez, muito feliz, pegou o bouquet de flores que seria entregue à solista italiana e levou-o escondido para sua mulher.
— Pero ella no estaba sola en nuestra cama... No tuve valor para matarla, teníamos dos hijos pequeños, pero el hombre, sí, lo maté.
Na madrugada seguinte a travessia do rio foi um verdadeiro desastre. Eu já perdera uns vinte bois rio abaixo, quando vieram me trazer a notícia. Don Ramírez, que cruzava o rio a cavalo, sumira nas águas barrentas junto com a montaria e ninguém o vira mais.
Até hoje tenho essa história atravessada na garganta. Depois de contar, confiando em mim, seguramente pela primeira vez sua tragédia, Don Ramírez se afogou ou deixou-se levar pelas águas? Não sei, mas não esqueço as últimas palavras que me disse naquela noite:
— Usted es joven. No se crea que todas las mujeres son móbiles, traicioneras como esta del Rigoletto. Traicioneros somos nosotros, los hombres, y mucho más. Como mi hermano, el último hombre que debía traicionarme.

*Escritor
voltar