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Nº 430 - ANO 33 - JULHO DE 2019
 
Diplomatas conhecem a agropecuária do Estado
 
Missão internacional da CNA desembarcou no Rio Grande do Sul para conferir a qualidade
da produção de carne, soja, arroz e vinho

Durante três dias, o Rio Grande do Sul tornou-se uma vitrine do agronegócio para adidos agrícolas e representantes de nove embaixadas no Brasil. A convite da CNA, a delegação de estrangeiros percorreu o Estado, entre os dias 1º a 3 de abril, para conhecer a competência do país em fornecer alimentos e outros produtos agropecuários para o mundo.
Entre os países representados, estavam clientes consolidados, como a China, e outros nos quais há grande interesse de abertura comercial, como o Japão. Diplomatas de Austrália, Burkina Faso, Chile, Egito, Irã, França e Singapura, além de representantes do Itamaraty, da CNA, do Sistema Farsul e jornalistas completaram a comitiva.
Antes de pegarem a estrada, os adidos foram recebidos na sede do Sistema Farsul, em Porto Alegre, onde ouviram palestra do economista-chefe da entidade, Antônio da Luz, sobre a participação brasileira no comércio mundial de produtos agropecuários. Houve ainda manifestação do secretário estadual de Governança e Gestão Estratégica, Claudio Gastal, acerca do interesse do governo em realizar parcerias.
Depois, partiram para o interior para conferir as características da agropecuária gaúcha com os próprios olhos. Passaram pelo Porto de Rio Grande, rodaram por duas propriedades rurais da Região da Campanha, reconhecidas pela diversificação, tecnologia e sustentabilidade na produção, e estiveram em uma indústria de beneficiamento de arroz. Saíram impressionados com o trabalho de ponta que existe por trás de mercadorias de exportação como carne bovina, soja, milho, arroz e vinho.
O Sul Rural participou da viagem e conta os detalhes do roteiro diplomático nesta reportagem.

Potencial de investimento em logística anima estrangeiros

A visita dos representantes de embaixadas ao interior do Estado começou pelas águas de Rio Grande. Em um barco-escola da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a delegação atravessou toda a extensão do maior complexo portuário gaúcho — desde o porto antigo, desativado e hoje reduto de pescadores e patrimônio cultural, até o Superporto de Rio Grande, com 12,8 metros de calado homologado e de onde partiam cargas de grãos recém colhidos nesta safra de verão.
A atração de investimentos estrangeiros para solucionar os problemas de escoamento de produção no Estado foi o assunto principal nessa parte do percurso. CNA, Farsul, governo do Estado e empresas operadoras apresentaram a capacidade logística atual e as oportunidades existentes em parcerias público-privadas para assumir, ampliar ou abrir novos terminais no complexo portuário.
De acordo com o presidente do Sistema Farsul e diretor de Relações Internacionais da CNA, Gedeão Pereira, a agenda mostrou o impacto do agronegócio gaúcho nas exportações e alertou para algumas carências em termos de logística que podem ser aproveitadas por investidores de fora do país. “O porto de Rio Grande é um capital inestimável para nós. Ele tem um potencial enorme, mas ainda carece de investimentos”, destaca.

“Poucos lugares do mundo podem crescer em produto e mostrar uma porta tão qualificada de entrada e saída”, afirmou o superintendente do Porto de Rio Grande, Fernando Estima, ao grupo de estrangeiros — anunciando ainda a conclusão da dragagem no canal até meados de maio. O término da obra pode resultar em profundidade navegável de 15 metros no Superporto, a depender de oficialização da Marinha, o que faria Rio Grande receber navios ainda maiores.
Ao final do percurso, o grupo desceu no Terminal de Contêineres para ouvir palestras curtas de representantes de Tecon, Bianchini, Yara, Sagres e da área de exportação de granéis líquidos do Porto de Rio Grande. O primeiro-secretário da Embaixada da China, Changqing Bai, era um dos mais interessados. O diplomata entende que o Brasil está preparado para atender a demanda chinesa, mas precisa melhorar as condições de transporte de produção — algo que a China tem condições de explorar. “São imensas as possibilidades de cooperação. Para que o Brasil tenha competitividade, queremos investir mais em infraestrutura por aqui”, disse. O parceiro asiático é o principal destino das exportações brasileiras, com destaque para a compra de soja e carne bovina.

Missão internacional aprende sobre diferenciais produtivos da região
Os adidos agrícolas adentraram as porteiras da Estância Santa Maria, de Bagé, no dia seguinte. Nela, conheceram os diferenciais da pecuária gaúcha e o uso intenso de tecnologia na agricultura nos campos do pampa – incluindo irrigação, integração entre lavoura e pecuária, estrutura de armazenagem de grãos e maquinário de ponta.
Além da China, líder na importação de carne bovina gaúcha — foram 47,3 mil toneladas no ano passado —, os dois países árabes convidados, Egito e Irã, revezam posições no ranking de importação do produto. Diante do rebanho da raça Hereford da fazenda, representantes desses países garantiram que os números só tendem a crescer.
Omar Elrifai, cônsul da Embaixada do Egito, ressaltou que o país conta com a produção brasileira para suprir a demanda de carne bovina da população, que superou 100 milhões recentemente. Já o segundo-secretário da Embaixada do Irã, Mohsen Shahbazi, disse que há condições de dobrar a compra de carne brasileira. Os dois foram presenteados com um churrasco de carne halal (gado abatido conforme a lei islâmica), proveniente do frigorífico Marfrig, mostrando como o contexto internacional está inserido no município.
O Japão é outro mercado que o Brasil presta especial atenção, mas esbarra na ausência de um acordo de livre comércio, ao contrário de concorrentes como União Europeia, Estados Unidos e Austrália, lembra a superintendente de Relações Internacionais da CNA, Lígia Dutra. No caso específico da carne, o país asiático também não compra de países sem o certificado de zona livre de febre aftosa sem vacinação. Outra cultura chamou a atenção de Hiraku Ohta, segundo-secretário da Embaixada do Japão: ele disse ter “ficado surpreso” com a larga produção de arroz no Estado, que representa 70% da oferta nacional.
O roteiro pela estância começou pela apresentação do gado de corte. A criação de raças britânicas, reconhecidas pela qualidade de carne superior, é uma característica do Estado, onde o clima ameno favorece. Ao longo do ano, são trabalhadas em torno de 8 mil cabeças, mais o gado de invernada, em regime de integração com a lavoura. Na soja, o investimento é de 3,4 mil hectares, 20% com irrigação em pivôs centrais, e no arroz, 500 hectares. A água utilizada é da chuva, captada em açudes e reservatórios. A fazenda conta ainda com azevém, produção de eucaliptos e, eventualmente, milho e sorgo. Depois de colhidos, os grãos partem para os silos, com capacidade de armazenamento de até 13,5 mil toneladas.
O anfitrião em Bagé foi o proprietário da Estância Santa Maria, Gedeão Pereira. Ele destacou a importância de mostrar a clientes tradicionais e potenciais investidores os cuidados com meio-ambiente, bem-estar animal e outros temas que são praticados regularmente nas propriedades gaúchas. “O objetivo foi deixar o nosso importador absolutamente tranquilo a respeito da qualidade dos produtos que eles nos compram”, disse.
Os estrangeiros terminaram a visita em cima das colheitadeiras, que passavam por uma das áreas de arroz da propriedade. Sonia Ouedraogo, primeira-conselheira da Embaixada de Burkina Faso, disse ter ficado impressionada com o uso de maquinário e a escala de produção local – a produção do país é basicamente algodão, quase inteiramente manual. A comitiva foi recebida, à noite, na sede da Associação e Sindicato Rural de Bagé.

Setor do arroz encaminha parcerias com China e Irã
A primeira parada da delegação em Dom Pedrito foi na empresa de beneficiamento Coradini Alimentos, onde o grupo conheceu o processo de industrialização do arroz em casca. O local internaliza 6 mil toneladas do grão por mês e exporta desde 2004. Atualmente conta com 20 clientes internacionais.
De olho nas vendas para os países da comitiva, principalmente China e Irã, os empresários Elio Coradini e Elio Coradini Filho destacaram as condições de exportação do produto em diferentes formatos e níveis de qualidade. “Queremos vender arroz e comprar fertilizantes do Irã”, anunciou Coradini, com a ideia de baixar o custo de produção aos mais de 200 produtores parceiros ao mesmo tempo que conquista um novo mercado. Quanto à China, Coradini Filho disse que os negócios não avançam pela ausência de um acordo fitossanitário, em recado para o Itamaraty, e que a cadeia orizícola pode se adaptar a pedidos do gigante asiático, como a variedade aromática.
O representante iraniano, Mohsen Shahbazi, conta que o país não importa arroz brasileiro basicamente por não ter o conhecimento da produção local. “O arroz do Uruguai é famoso entre os iranianos, mas eles não sabem que é basicamente o mesmo cultivado nesta região”, conta. Shahbazi disse que irá transmitir a informação a companhias locais. Changqing Bai, da China, disse que há interesse em investir na cultura por meio da Dow Chemical, recentemente adquirida por um fundo chinês.

Roteiro termina em vinícola sustentável de Dom Pedrito
Fechando a programação, a Estância Guatambu, de Dom Pedrito, apresentou um projeto agrícola sustentável e bastante diversificado. A vinícola é inspirada em construções espanholas coloniais, a estrutura é 100% abastecida com energia solar (600 painéis instalados há três anos na propriedade), investe-se em captação e tratamento da água da chuva e os resíduos sólidos são reaproveitados em atividades como a ovinocultura.
A propriedade trabalha ainda com integração entre lavoura e pecuária – aliando a criação de gado de corte das raças Hereford e Braford e ovinos de carne com o plantio soja, arroz, milho e pastagens, além da vitivinicultura. “É uma região muito propícia para a diversificação, pelo clima e solo”, conta o proprietário da Guatambu, Valter José Pötter. Para ele, receber representantes dos cinco continentes é benéfico para todos. “Grande parte deles não conhecia esse potencial e, principalmente, a qualidade dos produtos. Tenho certeza que é o primeiro passo para futuros negócios”.
A adida agrícola da Embaixada do Chile, Maria José Herrera, disse ter ficado feliz em conhecer um projeto voltado para a sustentabilidade e que entrega produtos de qualidade ao consumidor, com visão global. O conselheiro agrícola regional para assuntos sanitários e fitossanitários da Embaixada da França, Franck Foures, revelou admiração com o emprego fiel de técnicas típicas de seu país na produção de espumantes e elogiou o produto. Já o segundo-secretário da Embaixada do Japão, Hiraku Ohta, disse que gostaria de ver vinhos gaúchos de qualidade “rapidamente” nos mercados do arquipélago.
Após rodar pelos campos de soja, milho e gado de corte da fazenda, o grupo retornou a Porto Alegre. Para Lígia Dutra, da CNA, a missão rendeu bons resultados. “Conseguimos ver um pouco de tudo nesses três dias: a qualidade dos produtos, a tecnologia que vem sendo usada, a adaptação de clima e solo para produzir soja, a integração com a pecuária, a exploração de novos setores e o investimento em serviços de turismo”, conta. Todas essas questões acabam fortalecendo a imagem do setor no exterior. “O agronegócio brasileiro sofre com muitos ataques, e a melhor maneira de reverter essa percepção é simplesmente trazendo essas pessoas para mostrar a eles a realidade do produtor. Isso causa um grande impacto e abre as portas para novos negócios, contatos e acordos de cooperação”.
A primeira-secretária da Embaixada de Singapura, Felicia Chua, disse que a visita deixou mais claro o potencial gaúcho na produção agrícola e que vislumbra oportunidades de investimentos. O país importa principalmente carnes bovina, suína e de frango. Integrando a comitiva, o secretário do Departamento de Promoção do Agronegócio do Ministério das Relações Exteriores, Jean Paul Coly, elogiou a ação e confia na abertura de novas relações comerciais a partir das conversas. “Elas podem gerar boas oportunidades, porque o olhar dos adidos agrícolas está voltado para a identificação de oportunidades próximas às demandas de seus países de origem”. Rosemary Hunter, segunda-secretária da Embaixada da Austrália, representou o país na delegação estrangeira, mas não pode conceder entrevista.

Texto Samuel Lima
Fotos Wenderson Araújo
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