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Nº 430 - ANO 33 - JULHO DE 2019
 
Campanhas e centenário - Blau Souza*
 
Perdoem-me os produtores de fumo, mas vou desagradá-los. Quando tornei-me médico em 1965, pelo menos dois eminentes professores e cardiologistas fumavam e alegavam fazê-lo pela falta de evidências científicas sobre os malefícios causados à saúde pelo cigarro. As tais evidências chegaram aos montes e os dois mestres evoluíram como vítimas do fumo, eles mesmos, depois de trabalhoso e tardio abandono do hábito, que não os livrou de tratamentos penosos e paliativos. Ainda como estudante, participei de campanhas antifumo e, como médico novo, escrevi contra a maléfica ação de belas moças que distribuíam carteiras de cigarros entre os banhistas do nosso litoral: a gurizada fazia filas para receber as amostras...
Ao ocupar cargo de diretor de relações públicas na AMRIGS, instituí concurso de cartazes ou banners contra o fumo e lidei com diferentes posicionamentos do pessoal da imprensa, de quem muito dependia o sucesso do concurso. Senti o peso da indústria fumageira como grande patrocinadora de eventos, sobretudo esportivos. As direções de jornais, de emissoras de rádio e de televisão tergiversaram, por exemplo, na hora de indicar pessoas para compor a comissão julgadora do concurso e pouco divulgaram o evento. Apesar disso, o concurso foi um sucesso e até hoje sinto reflexos da sua importância.
O vencedor foi um médico, o Dr. Ronaldo Cunha Dias, clínico em Vacaria e consagrado chargista. Ele já vencera certames internacionais de caricatura e introduzira o uso de cores em seus trabalhos. Além disso, elaborara as capas dos sete tomos que compõem a série “Médicos (pr)escrevem”, cuja coordenação dividi com os doutores Franklin Cunha, Fernando Neubarth e José Eduardo Degrazia. Como era o cartaz? Homem com cara sofrida tem seu tórax atravessado por um enorme cigarro aceso e pergunta em pequena nuvem “É grave, doutor?” A qualidade do traço e a singeleza da mensagem facilitaram a tarefa da comissão julgadora.
Mas a motivação para escrever hoje sobre cigarro está por conta da comemoração de um centenário: o de Gildo de Freitas, pessoa muito querida no tradicionalismo gaúcho, no qual ocupa nicho muito especial como artista e como ser humano. Num tempo em que atendia ambulatório do INAMPS no Viaduto da Borges de Medeiros, conheci-o. Ele não me procurara, nem tivéramos contato anterior; eu apenas o atendia porque seu médico assistente estava de férias... Mas isso não impediu que eu o cumprimentasse por ser autor de trabalho pouco conhecido contra o cigarro. Casualmente eu conhecia seus versos e os comentara com colegas. Na sua condição de homem bom, procurava estimular os jovens para que evitassem o cigarro, grande responsável pelo enfisema pulmonar que tanto o afligia e impunha limites no emprego da voz. Ele ficou emocionado com a lembrança e eu passei a divulgar, mais do que antes, o valor de sua colaboração.
Lembro que falamos um bocado sobre a necessidade de fazer frente às muitas mensagens pró-fumo do dia a dia dos meios de divulgação e propaganda. Na sua simplicidade, ele tinha a sabedoria dos experientes e gostou de uma das adaptações que eu fizera para dialogar com pacientes fumantes no curto espaço ocupado pelas consultas de ambulatório. Afinal, quando alguém chegava tossindo, dedos e dentes amarelados, hálito com sarro inconfundível, eu fazia pausa de aparente desligamento e dizia alguma coisa como: Fiz duas coisas muito erradas na vida... O habitual é que o paciente perguntasse sobre o que eu fizera de tão errado, e eu, então, concluía: Fumei dois cigarros. Às vezes a mensagem funcionava, sobretudo se já tivesse conquistado a confiança do paciente em consultas anteriores.
O certo é que agradei ao Gildo naquele contato ocorrido há muitos anos e que rememoro para homenagear o grande trovador no ano em que se comemora o centenário de seu nascimento.

*Médico e escritor
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