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Nº 428 - ANO 33 - MAIO DE 2019
 
Hora de sesta - Alcy Cheuiche*
 
É hora de caçar lagarto
E peleguear camoatim.
Hora das artes sem fim
Que o grande faz que ignora.
E muito guri de fora,
Criado no desamor,
Numa infância de rigor,
Só foi guri nessa hora.

Jayme Caetano Braun

Zeca e Chico, com as caras mais inocentes, pegam a pá de corte e vão catar minhocas. Vão coisa nenhuma, pois largam a pá encostada na cerca de pedra, quando deixam de ver o galpão. As minhocas já estavam numa latinha desde o dia anterior, com bastante terra para se manterem vivas. São a prova de que os guris estavam fazendo outra coisa, se os grandes desconfiarem deles depois da sesta.
Voltam pé ante pé sobre os passos e param para escutar. Nenhum ruído nesta hora de mormaço. Ruído de gente, bem entendido. Porque aquele pica-pau desgraçado, logo agora, começa a picar a parte carcomida do cinamomo velho. E só voa para longe quando o cachorro Regalo se acorda e late furioso para ele. Quase ao mesmo momento, a naniquinha carijó bota um ovo na barrica do milho e comemora cacarejando bem alto. Mas sai correndo, de asinhas abertas, para fugir dos relhaços do índio Ramão.
Silêncio no galpão e na casa da família, se não contarmos os roncos do patrão. Até os barulhos da cozinha se acabam, embora certamente algumas mulheres ainda continuem por lá, conversando aos cochichos e pitando. Mas da cozinha não se enxerga a mangueira de tirar leite e é lá que está o cocho novo, grande e com formato de caíque. Feito de um tronco só, cavado e moldado com formão e martelo durante dias e dias pelo peão caseiro, o seu Honório, em suas horas de folga. Vai servir no inverno para dar farelo de arroz, molhado como papa, para as duas vacas leiteiras que o patrão comprou no Uruguai. Por enquanto, não serve para nada; a não ser que o Zeca e o Chico o arrastem até o açude para usar de canoa.
Bueno, é o que eles começam a fazer, dentro de um plano muito bem combinado. Zeca, o filho do patrão, com dez anos de idade, um mais que o Chico, o filho do capataz, vai puxando o cocho com um cabresto de couro, dos muitos usados para atar os terneiros durante a ordenha. O outro piá vem atrás varrendo o rastro com uma vassoura de piaçava. E assim vão avançando, em completo silêncio, até uma distância segura onde possam descansar e conversar.
— Não te parece, Chico, que este troço é muito pesado?
— Não sei, tu é que tá puxando.
— Pois então puxa um pouco.
— Tá bom. Mas varre direito atrás, porque tu não é vaqueano de bassora.
Trocam ligeiro de lugar e seguem pelo carreiro das ovelhas, meio em ziguezague, até o topo da coxilha. Ali fazem nova parada, suando debaixo do sol. E aproveitam para contemplar o açude desenhado em azul no meio do pasto verde amarelado. Uma taipa de pedras represa as águas que atraem uma multidão de bichos de pelo e de penas. Vacas, ovelhas e cavalos se amontoam do lado do poente, onde foram plantados eucaliptos, indo preguiçosamente para matar a sede, franzindo as ventas, e voltando logo para deitar-se na sombra. Do lado do nascente, dentro d’água até meia canela, algumas garças se mantêm imóveis, lembrando uma estatueta branca, muito elogiada pelos visitantes, que a mãe do Zeca comprou na Europa e expõe, bem no alto de uma estante, longe do perigo de tropeços, na sala de visitas. Muitos quero-queros esvoaçam pelas margens do açude, em completo silêncio, e urubus voam alto no céu como pandorgas negras desgarradas.
De perto, os guris respiram o cheiro conhecido, mistura de lodo e bosta de vaca. E tratam de escolher o melhor lugar para pôr a canoa na água.
— Se botamos no lado dos eucaliptos, o gado se esparrama e alguém pode ver lá das casas.
— E se botemo do lado de cá, as garça vão voá e os quero-quero dão o alarma.
— Na ponta mais rasa tem barro demais e periga um jacaré tá enterrado no barro, caçando algum bicho pequeno.
— Deus nos livre e guarde! Então só nos sobra a taipa.
Num upa levantam o cocho, cada um segurando numa ponta, e seguem caminhando sobre o pasto seco para não deixar rastros no barro. Param bem no meio da taipa, arriam a carga e cada um pega um pedaço de taquara que tinham escondido num buraco no meio das pedras. Botam dentro do cocho e pronto: irão servir melhor que remos. É só apoiar as taquaras no fundo e dar impulso para a canoa andar para o lado que quiserem. Porém... Ainda é preciso descer o cocho, com muito cuidado, bem parelhinho, para não entrar água por um dos lados.
— Tá bom assim, Chico. E logo que tiver n’água, eu entro primeiro.
— Tu, nada. A ideia foi minha.
— É, mas se nos descobrem, nos cagam os dois de pau.
— Pois então vamos entrar juntos.
— Tá certo, vamos largar bem devagarinho.
Soltam o cocho quando está a menos de um palmo da água e ficam olhando a canoa afundar e sumir-se completamente. Só flutuam os dois pedaços de taquara que tinham colocado dentro dela.
Como o plano era só navegar um pouco e levar o cocho de volta para a mangueira, os piás olham apavorados um para o outro, pegam as taquaras e saem correndo de volta para as casas. Já sentindo a dor dos relhaços na bunda e nas pernas, mas não tendo nada para reclamar. Criança sempre chora quando leva uma tunda, mas só fica com raiva quando apanha sem razão.
Acontece que o seu Honório tinha ido ao povo para visitar um irmão muito doente na Santa Casa e, quando voltou, depois do enterro e da missa de sétimo dia, as férias de verão tinham terminado. Zeca já estava em Porto Alegre com a família, depois de uma viagem enorme de trem. O caseiro só deu por falta do cocho, bem novinho, quando passara todo o perigo. Chico nem foi interrogado pelo pai, pois um piá sozinho não teria forças para roubar um troço grande daqueles... e para que?
Foi assim que o cocho novo do seu Honório ficou apodrecendo lentamente no fundo do açude durante muitos anos, até se esfarelar por completo. E o mistério do sumiço, às vezes lembrado no galpão, entrou para a conta das bruxarias que, de vez em quando, acontecem nas velhas estâncias.

* Médico Veterinário e Escritor
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