Jornal em Formato HTML
 
Nº 433 - ANO 33 - OUTUBRO DE 2019
 
Um gaúcho maior e adaptado
 
Com o fim da exploração do couro, o gaúcho teve de adaptar-se. E o fez de maneira admirável, a ponto de passar de nômade infrator a herói cantado em prosa e verso. A afirmação de estâncias com donos conhecidos, delimitadas e com animais marcados passou a ser o normal e o desejado tanto na América portuguesa quanto na espanhola. Entre nós, muitas sesmarias foram distribuídas para premiar feitos bélicos e as estâncias foram habitadas por “pastores guerreiros”, compromissados com a exploração econômica do gado, com a defesa da terra recebida e, por consequência, com a defesa da própria pátria. É fácil entender que os gaúchos tenham sido os primeiros peões nessas estâncias. Agradava-lhes a vida ao ar livre e a cavalo, com uso intenso do laço e das boleadeiras. Domavam os cavalos xucros, amansavam as futuras tambeiras e os bois para puxar carretas e arar terras. Tirar couros? Só para obter carne de rês carneada para consumo ou dos animais mortos por doença ou por fome nos invernos frios. O trabalho de guasqueiro ficava para os dias de muita chuva. Mas tudo isso acontecia em tempos de paz, que afinal não eram tão frequentes. Guerras e revoluções ganharam nomes, datas e heróis, mas o dia-a-dia com invasões e violência em áreas de fronteira exigia preparo militar mínimo e contínua vigilância. Armas de fogo complementavam habilidades no uso de espadas, facões, e lanças improvisadas de taquara ou bambu. Forças regulares desde a Guarda Nacional até o Exército aproveitaram muitos gaúchos com suas habilidades e, não foi por acaso, que se criaram unidades de artilharia montada ou de cavalaria artilhada.
O aumento do gado e a existência de compradores levaram ao desenvolvimento das charqueadas. Abriram-se trilhas, caminhos, sobretudo com o incremento da exploração do ouro e das pedras preciosas no Brasil central. Repetiram-se no mundo português, as tropeadas de gado e de mulas da América espanhola para suprir as minas de prata de Potosí. E o gaúcho cresceu como tropeiro e como alguém que dominava todas as etapas na obtenção das valiosas mulas. Afinal uma boa mula, bem domada, valia o correspondente a três bois gordos. A capacidade de adaptação do gaúcho, no pampa ou fora dele, tem sido comprovada através dos tempos; às vezes vencendo dificuldades que inspiraram obras de arte. Na literatura, o gaúcho surgiu como aventureiro changueador e evoluiu para “monarca das coxilhas”. Autores como Simões Lopes Neto e Érico Veríssimo tornaram sua história e seu viver bem conhecidos. Na voragem dos tempos modernos e do êxodo rural, personagens de Alcides Maya viveram decadência, mas ainda a cavalo. Já em Cyro Martins, o gaúcho está a pé. Mas, tanto os que permaneceram no campo, quanto os que a ele voltaram como técnicos de uma agricultura mecanizada ou de uma pecuária de ponta, todos eles muito se orgulham de serem gaúchos. Em ascensão, o termo passou a designar todos os nascidos no Estado e muitos chegados de outras plagas e que assim se consideram por força de história, tradições, hábitos, maneira de ser. Em tempos de globalização, conservar a identidade cultural nem sempre é fácil, sobretudo quando há migração para novas terras no Brasil ou no exterior. Nisso os gaúchos têm sido admiráveis e as centenas de Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) espalhados pelo mundo evidenciam o que afirmo. Nesta e na crônica anterior, rememorei coisas ditas em minha terra por ocasião da 10ª edição de “O pampa e o gado”, que homenageou seu idealizador, o Fernando Adauto. Em vida, ele e eu, líamos livros que um emprestava ao outro e que motivavam longas conversas. Não devolvi o último livro emprestado por ele: “O cavaleiro da terra de ninguém” de Sinval Medina e que me ajudou na palestra sobre história. Afinal, Cristóvão Pereira de Abreu foi fundamental para consolidar a presença lusa na Bacia do Prata e no pampa. O jovem “contratador de couros da Colônia do Sacramento” tropeou, guerreou, abriu caminhos, fez pátria e nela morreu, aos 77 anos, em 1755.
voltar