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Nº 433 - ANO 33 - OUTUBRO DE 2019
 
Uma risada de galpão - Alcy Cheuiche*
 
— De que está rindo, Doutor Saint Pastous?
— De nada... Bem... de um fato que me contaram a seu respeito, General Flores. Acontecido na Câmara de Deputados, mas não sei se é verdade.
— Deve ser. Muitos daqueles idiotas engravatados têm vocação para palhaços... Pena que o Getúlio dependa dessa gente para governar.
— E como vai o nosso Presidente?
— Gordo e são de lombo. E nunca governou tão bem na sua vida, o que está deixando o Lacerda como louco. Essa de nomear o Janguinho Ministro do Trabalho foi uma grande jogada. E autorizou o guri a dobrar o salário mínimo, que o Dutra tinha deixado perder muito valor.
— Mas o João Goulart não é novo demais para esse cargo?
— Talvez seja, deve ter uns trinta e poucos anos. Mas o Getúlio passou dos setenta; tem que preparar seu substituto. E eu e o Osvaldo Aranha somos quase tão velhos como ele.
— Dizem que o pessoal de São Paulo ficou furioso com esse aumento do salário mínimo e promete vingança.
— Política é assim, Doutor Saint Pastous, mas isso é bom para o futuro do Jango. A gente cresce na política não só com o aumento do número de amigos, mas também de inimigos.
— Sou médico, General Flores, não entendo nada de política.
— Pois o Batista Lusardo também é médico e estava lá peleando na Ponte do Ibirapuitã, infelizmente do lado dos maragatos... Quer mais um mate?
— Aceito. Nunca tinha tomado mate no Rio de Janeiro. Também, só venho aqui correndo.
— O Aranha e eu tomamos mate juntos quase todas as madrugadas, tirando tempo dos cavalos, no Jóquei Clube. Até na Câmara de Deputados eu não dispenso o chimarrão... E, por falar nisso, o que aconteceu comigo por lá que fez o senhor rir?
O médico olhou alguns momentos para o topete de erva verde, entremeada com alguns pauzinhos, e ajeitou-o distraidamente com o dedo indicador da mão esquerda. Embora também fosse famoso e respeitado, considerava o General Flores da Cunha quase como um mito, e hesitou em responder-lhe a pergunta. Porém, depois que a bomba roncou no fundo da cuia, devolveu-a com a mão direita e foi obrigado a falar.
— Foi um fato que dizem que aconteceu no ano passado, no aniversário do combate da Ponte de Ibirapuitã.
— Haaa... claro que eu me lembro, e foi um causo engraçado mesmo, embora não fosse esse o meu objetivo.
— Como assim, General?
— Foi quando eu registrei na Câmara a passagem dos trinta anos do Combate da Ponte do Ibirapuitã. Trinta anos... E, para mim, parece que foi ontem.
O general calou-se, emocionado, e Saint Pastous também recuou para aquela noite de 19 de junho de 1923. Recém-chegado da França, onde se formara em Medicina, a revolução que ensanguentava o Rio Grande do Sul lhe parecia ainda mais bárbara. E a cidadezinha de Alegrete, onde nascera, um triste amontoado de casas na curva do Rio Ibirapuitã. Numa delas, a dos seus pais, passara boa parte do dia ouvindo o tiroteio e segurando-se para não sair e ver de perto o que acontecia. Chegado o silêncio da noite, decidira ir até à Santa Casa para ajudar os dois ou três médicos da cidade a atender os feridos. Quando chegou próximo do hospital, foi detido por uma voz autoritária:
— ¡De aquí no pasa!
— Tenho que passar, sou médico, vou cuidar dos feridos.
— ¡Salga de la vereda y póngase en el medio de la calle!
Humilhado por receber ordens em espanhol em seu próprio país, foi obrigado a sair da calçada e colocar-se no meio da rua. Não demorou e colocaram-lhe um lampião de querosene na cara.
— ¿Tiene alguna arma?
— Não. Para que precisaria de uma?
— ¡Soy yo quien hace las preguntas! ¿Quién lo mandó acá?
— Ninguém. Vim porque acredito que precisam de mim.
— Bueno, también hay uruguayos heridos... Usted puede pasar.
O médico pensou tudo isso em poucos segundos e, revivendo a arrogância do guerrilheiro, perguntou em voz baixa ao general, que tomava mais um mate, também pensativo:
— Por que o senhor aceitou que aqueles castelhanos lutassem do seu lado, em 1923?
Flores da Cunha terminou de sorver o mate e respondeu, sorrindo:
— Eu não aceitei, eu pedi ajuda ao Nepomuceno Saraiva e sua gente para lutarem do nosso lado contra os maragatos do Honório Lemes. O pai dele, o General Aparício Saraiva, também combateu aqui em 1893.
O médico ia comentar que sim, que os irmãos Gumercindo e Aparício Saraiva tinham lutado no Brasil, na Revolução Federalista, mas do lado dos revolucionários e não a favor do governo. Constrangido, resolveu não dizer nada sobre isso, afinal, não queria entender de política. Mas gostava muito de História e não perderia a oportunidade de ouvir o relato que ele mesmo provocara.
— E o que aconteceu quando o senhor discursou nos trinta anos do Combate da Ponte?
— Bem, na qualidade de Presidente da Câmara de Deputados, eu não poderia quebrar o protocolo. Assim, passei a presidência para um colega, antes de ocupar a tribuna e tomar a palavra.
— ...
— De fato, eu estava muito emocionado, pois queria falar também em homenagem ao meu irmão Guilherme, que morreu crivado de balas sobre a ponte.
— Por que era importante atravessá-la?
— Porque o Ibirapuitã estava muito cheio, a poucos palmos da pranchada da ponte, o que nos impediu de atravessar o rio a cavalo, a nado. Além disso, o Honório e uns trezentos maragatos estavam entrincheirados do outro lado, nos provocando com uma bandeira vermelha hasteada no alto de uma casa de pedra.
— Assim como os toureiros fazem para provocar o touro?
— Exatamente. E nós aceitamos o desafio e demos uma carga de cavalaria para atravessar a ponte, sendo o meu irmão morto e o Osvaldo Aranha ferido, entre outros, na primeira tentativa.
— E o que houve de hilariante? Eu não compreendo...
— Naquele combate só houve sofrimento e agonia, de ambos os lados. Acontece que, ao narrar os fatos da tribuna, eu comecei a repetir as primeiras palavras, como se faz nos discursos. 
            - ...
— Sim, eu começava cada frase dizendo: Me lembro muito bem daquele dia de loucura cívica... Me lembro dos lenços brancos republicanos salpicados de sangue rubro... Me lembro da dor do meu próprio ferimento, que não me impediu de continuar montado a cavalo, comandando a carga... Me lembro... Foi quando tive meu discurso interrompido pela voz em falsete de um adversário político:
— Vossa Excelência permite um aparte?
Mesmo contrariado com a interrupção, respondi-lhe educadamente:
— Como não, nobre Deputado Teixeira Coelho.
— Muito obrigado, senhor Presidente. Meu aparte é para elogiar a aula de História que estamos recebendo de Vossa Excelência, partícipe glorioso que foi dos fatos que nos está narrando. No entanto, Vossa Excelência está falhando com o vernáculo, Vossa excelência está massacrando a língua portuguesa. Vossa Excelência não tem o direito de inverter o pronome, dizendo: me lembro. Lembro-me é a maneira castiça, certa, de dizer.
— ...
— Meu amigo, ao ouvir aquelas asneiras, meu rosto ficou mais vermelho do que a bandeira dos maragatos. Mas, como não podia derrubar a pata de cavalo aquele insolente...
— O que ele merecia.
— Sim, merecia no mínimo uns tabefes, mas consegui controlar-me, respirei fundo e disse-lhe com a voz mais calma possível:
— Deputado Teixeira Coelho, eu não estava a falar com o vernáculo e sim com o coração. Como o faço agora, nobre deputado, pois se tivesse que falar-lhe sem inverter o pronome, eu não o chamaria de Teixeira Coelho e sim de Xeira-te Coelho...
Desta vez, Saint Pastous, com toda sua educação polida em Paris, não conseguiu conter-se e deu uma risada verdadeira, uma verdadeira risada de galpão.

*Médico Veterinário e Escritor
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