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Nº 420 - ANO 32 - SETEMBRO DE 2018
 
Censo Agropecuário mostra o campo gaúcho mais velho, concentrado e tecnológico
 
A produção agropecuária gaúcha está seguindo as tendências mundiais e se aproximando cada vez mais da realidade dos países desenvolvidos. Isso porque, desde 2006, o Rio Grande do Sul perdeu propriedades rurais e viu a população rural encolher 20%, ao mesmo tempo em que elevou a área de produção, concentrou a terra, ganhou em escala e aumentou o uso de tecnologia. É o que mostram os dados preliminares do Censo Agropecuário 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado em 26 de julho.
De acordo com o levantamento, os estabelecimentos rurais gaúchos passaram de 441,5 mil para 365 mil em pouco mais de uma década, em parte devido a mudanças na metodologia da pesquisa. Só que essa mesma queda (17,3%) não acontece quando o assunto é área, que pelo contrário, cresceu na ordem de 1,35 milhão de hectares (6,7%). Ou seja, o que existe é um movimento de concentração no campo, que fica mais fácil de entender a partir de outros dois dados relevantes do Censo 2017.
O primeiro é que o número de pessoas ocupadas no meio rural hoje é de 983,7 mil, 20,1% menos que no levantamento anterior. Significa dizer que 248 mil pessoas deixaram a atividade ao longo de 11 anos. Da mesma forma, o campo gaúcho está ficando mais velho. A população de 65 anos ou mais, que antes respondia por 17,5% da população rural, atualmente equivale a 23,1%. O percentual de jovens (24 anos ou menos), que era de apenas 1,9%, agora não passa de 1,2%. A faixa intermediária, de 25 a 64 anos, também reduziu de 80,6% para 72,7%.
Para o presidente do Sistema Farsul, Gedeão Pereira, todos esses dados estão interligados e ajudam a entender o contexto da produção agropecuária gaúcha. O envelhecimento da população rural, por exemplo, aponta para a dificuldade ainda presente de “segurar” as novas gerações na atividade, principalmente nas pequenas propriedades, que contam com menor infraestrutura e, consequentemente, menos atrativos para a permanência. “No momento em que a família perde esse jovem, os mais velhos, que são a raiz da propriedade, tendem a sair do negócio. Acontece então a venda para alguém que tem uma escala um pouco maior de produção”, analisa o dirigente.
O êxodo rural surge, assim, como uma causa em potencial dessa aparente concentração de área. Teoria que é reforçada pelo fato de os estabelecimentos com menos de 100 hectares estarem no menor nível da história (28,3%), com avanço daqueles com mais de mil hectares, que respondem por um terço (33,3%). O percentual de terras arrendadas no Rio Grande do Sul também passou de 15,1% para 20,8%. “Esses três movimentos, reconcentração de área, aumento da propriedade e diminuição da população rural, são uma tendência observada em todo o mundo, principalmente nos países desenvolvidos. Estamos caminhando para lá também”, diz Gedeão.
O aumento da área das propriedades, por sua vez, ocorreu principalmente em termos de lavoura (+12,9%), atualmente pouco mais de 7,8 milhões de hectares, mas também em matas e florestas (+11,9%), hoje 3,4 milhões de hectares. Dados que indicam que o aumento da produção é feito de maneira responsável, respeitando áreas de mata nativa (+9,8%), por exemplo, além do crescente investimento em florestas plantadas (+18,1%). O espaço cedido é o de pastagens naturais (-9,1%), com 7,5 milhões de hectares, substituído também pelas pastagens plantadas (+67,7%), com 1,6 milhões de hectares.
O motivo principal é presença cada vez maior da soja no Estado, que mais do que dobrou de produção (117%) em 11 anos, influenciada por um avanço impressionante de 47,5% na produtividade. Fato que também explica o aumento do número de produtores que diz utilizar defensivos agrícolas. “O mais importante é que, mesmo com esse aumento na área de lavoura, a pecuária não diminui o efetivo de 11,3 milhões de cabeças. Ainda cresceu quase 1%. A mensagem é muito clara: o povo do campo que trabalha com pecuária está usando mais tecnologia. Está investindo mais na integração entre lavoura e pecuária, que defendemos há muito tempo e preconiza a utilização de grãos, concentrando o gado e diversificando a renda”, destaca Gedeão.
Várias outros dados, aliás, comprovam como o meio rural gaúcho está investindo mais em inovação e equipamentos. O número de tratores, por exemplo, aumentou 48% em 11 anos, sendo mais de 242,3 mil unidades atualmente. A soma total de máquinas agrícolas, considerando ainda colheitadeiras, semeadeiras/plantadeiras, adubadeiras e/ou distribuidoras de calcário, chega a 450 mil unidades, superando em 23% o número de estabelecimentos rurais no Estado.
Da mesma forma, a capacidade de silos e armazéns cresceu 50%, estando em 8,5 milhões de toneladas, e a produção irrigada é realidade hoje em 26,4 mil propriedades, que respondem por 1,4 milhão de hectares, área 41,2% maior que em 2006. Gedeão entende que são investimentos altamente benéficos à produção e possivelmente estão relacionados com políticas públicas de incentivo, via Plano Safra, com juros mais baixos. “O produtor vai para a irrigação para salvar a cultura e ter garantia daquilo que está fazendo, com o consequente armazenamento e venda em período favorável. São políticas defendidas pela Farsul e que devem ser mantidas a longo prazo”.
Chama a atenção, por outro lado, a quantidade de estabelecimentos gaúchos que não acessam financiamento. Conforme o Censo 2017, mais de 252 mil (69%) estavam nesse grupo. Apenas 79 mil (21,6%) buscaram custeio e investimento pelo governo federal. Para Gedeão, duas leituras podem ser feitas: ou cada vez mais gaúchos estão em situação de descapitalização extrema, a ponto de não poder bancar garantias, ou exatamente o contrário e está aumentando a dispensa do uso do crédito agrícola. A entidade deve analisar mais a fundo a questão.
Outra tendência é o maior acesso a internet no campo, cuja penetração passou de 2,3%, em 2006, para 41,1%, em 2017. A expansão é explicada pelo avanço do sinal no interior gaúcho e também pela popularização dos smartphones na última década. O primeiro deles, o BlackBerry, foi lançado somente em 2002, enquanto outros aparelhos, como o Iphone, da Apple, datam de 2006. Gedeão salienta, no entanto, que apesar de aumentar, o índice ainda é baixo diante das necessidades da agricultura moderna e de algumas cobranças impostas ao produtor rural, como a Guia de Trânsito Animal (GTA) eletrônica, a Nota Fiscal Eletrônica (NF-e), o eSocial, ou mesmo o recente Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a declaração anual do Imposto Territorial Rural (ITR).
A coleta dos dados do Censo Agropecuário 2017 aconteceu entre outubro do ano passado e fevereiro deste ano. Foram visitadas mais de 5,07 milhões de unidades de produção no período. O IBGE ainda pretende, nos próximos meses, coletar questionários em cerca de 7,8 mil estabelecimentos, enquanto outros 3 mil estão em processo de validação. Os resultados finais serão conhecidos em junho de 2019.
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